Metáfora


Aproximou-se da porta com a lentidão própria do comodismo. Abriu-a e entrou. Estava escuro, frio mas confortável. Demasiado confortável... Começou por abrir o postigo de uma janela e depois a própria janela. Rodopiou sobre os calcanhares e verificou que muitas outras havia por abrir. Nunca se apercebera de como se haviam fechado, trancado, vedado. Era a hora de as escancarar! O sentimento de conforto foi sendo substituido pelo de receio, mas a vontade de o vencer era superior ao mesmo. Os móveis estavam poeirentos, baços, sem cor e sem cheiro. Tinham estado demasiado tempo naquela escuridão. Não podiam assim continuar e havia a necessidade extrema de os voltar a fazer brilhar. O esplendor de outrora voltaria àquela casa dentro de algum tempo. Com esforço, com lágrimas, com sorrisos. Muitos objectos teriam de ser postos de parte para dar lugar aos novos que viriam. Do velho surgiria um novo ainda mais resplandecente.

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