Dias perfeitos


Há dias perfeitos. E há dias quase perfeitos.
Prefiro os segundos, pois deixam na boca o desejo de atingir a perfeição dos primeiros.

Nós


Cada grão de areia desliza como um dia que passa.
Cada folha que cai carrega no movimento a mudança.
As horas sucedem-se, os tempos morrem, renovando-se a cada raio de luz.

De nós fica o nada recolhido num tudo de emoções.
Saudade.

Intimidades


Há textos que só eu sei.
Nem de cor nem tampouco de salteado.
Habitam numa qualquer gaveta da memória que revisito sem aviso
com sobressalto e de rompante.
De lá saem frases soltas, desprendidas de sentido e repletas de significado.
De lá fogem versos, cantados ou não noutra idade que não a minha.
São meus, só meus. Partilho-os num acto simbólico de desprendimento
qual rio fluindo alagando as margens que se deixam inundar.
Guardo-os novamente, e ali ficam
até que outro acto de loucura os solte, diferentes de si mesmos,
e os deixe vaguear por outros leitos.

Partilha


Quisera eu percorrer o mundo em bicos de pés.
Escutar aqui. Aprender ali. Observar acolá.
Assim, num silêncio invisível ou numa sombra apagada.
Discreta.
Depois, numa explosão de imagens e de sons,
partilhar
com todos aqueles que tivessem o igual desejo de conhecer.

Quase


Falta sempre um "quase".
Aquele bocadinho, interminável, de tempo entre o presente e o que desejamos alcançar.

Dia-a-Dia


As horas mentem-nos
e os dias enganam-nos. Correm
lentamente apressados sem surpresas.
Passam, qual nuvem a pairar no céu:
branca, leve, despreocupada;
cinza, pesada, atormentada.
Pesa o acordar,
sabendo, de antemão,
o que o segue:
os mesmos poucos rostos
os mesmos muitos problemas
o mesmo tudo.

Há também os raios de sol
que espreitam por entre o céu carregado
e nos atingem, iluminam, aquecem.
Benvindos esses que são raros
que fazem esquecer os rostos, os problemas, o tudo.
Fazem-nos acreditar que virão mais vezes
e é nessa esperança que se baseia cada adormecer.

Abraçar o mundo


Por vezes a vontade de abraçar o mundo torna-se imensurável. Não há braços, alma ou coração suficientemente grandes para o conseguir...pelo menos de uma só vez.
É necessária vontade, persistência e afinco para lá chegar.
Tenho a certeza que chego lá.

Devaneios!


Hoje queria ser bailarina.
Dessas que dançam em pontas dos pés, com lindos vestidos de tule.
Dessas que são leves nos passos e espalham uma brisa por onde passam.
Dessas que se esticam e os seus contornos se confundem com o horizonte.
Dessas que escondem no sorriso, o trabalho árduo por trás de cada passo.
Dessas cujo palco é a casa e a casa é o palco onde actuam as suas fantasias.
Dessas que se deixam levar pelo sonho de voar.
Dessas que pisam as tábuas de cor, de olhos fechados, percorrendo-as com piruetas, pousando sempre no sítio certo.


Dir-me-ão: "Para se ser tal bailarina é necessário muito trabalho, muito sacrifício, muita dor..."
Eu sei, mas peço-vos: Não me arruinem o sonho!

Voltar



Voltei a sonhar com o sonho já extinto.
Voltei a desejar o que já foi quase uma realidade.
Voltei a querer aquilo que perdi sem nunca ter tido.
Voltei: forma passada do verbo voltar; desejo inacabado; sonho, um dia, segredado às estrelas e escrito na areia levada pelo mar.

Fugas



Apetecia-me fugir do mundo.
Refugiar-me algures.
Em terra, com os pés no chão.
Perto do céu, onde ninguém ouvisse o meu pensamento.

Sonhar


Pensar em sonhos como desejos faz-me acreditar que se podem tornar realidade.

S-A-U-D-A-D-E


Conseguiremos aliviar a saudade numa chávena de chá? Se ela for aromatizada da forma correcta, por que não?
Não, não há fórmulas para tal. Basta que à água quente lhe juntemos um pouco de tudo o que nos traz lembranças: um pouco de limão, gengibre ou canela; jasmim, bela-luisa ou cidreira...
A saudade nunca morre. Saudade de tudo, de pouco ou de nada. É bom que haja algo que a mantenha viva dentro de nós. É sinal de que há momentos, pessoas, objectos mundanos que nos fazem felizes e nos deixam com um sorriso no rosto.

Voltar a errar


Chegar. Alcançar. Satisfazer.Apreciar. Concretizar.
E lançar de novo a vontade de continuar a incessante busca da felicidade.

Errando


Sentir cada minuto que passa, olvidando uns, recordando outros.
Esquecer o que faz doer.
Recordar o que faz viver.

Errar


Fugir do mundo sem destino certo.
Buscar o que não nos rodeia.
Alcançar o sonho, transformá-lo em desejo
e concretizá-lo.

Sem explicação...


Doce saudade que fica em cada partida.
Doces palavras de despedida que ficam na memória até ao reencontro.
Doce liberdade de emoções.
Assim...doce...sem explicação!