silêncio

escrevia na areia para que o mar lhe levasse as palavras
mudava uma vírgula, trocava-lhes o sentido
as ondas chegavam e as palavras fugiam,
assim como fugiam os pensamentos que carregavam,
como se buscassem a resposta no mar que as apagava.
nas ondas, apenas o silêncio
o silêncio de quem ouve e não sabe o que dizer
o silêncio que é sabio e vale por qualquer resposta
o silêncio que obriga a encontrar
a tão almejada resposta

Da saudade

Estranhei-te.
Vi-te quando não estavas.
Senti-te na tua ausência.

Não era mais se não
aquela saudade que nunca morre,
e que nunca se deixa matar
após cada reencontro.

(quase) Sem nexo

Escrever Amor.
Falar sobre a Morte.
Partilhar a Vida.
Correr de um lado para o outro sem destino.
Ser-se bom. Fingir-se mau.
Fugir de tudo.
Esconder-se de todos.
Chorar de alegria.
Rir de nervosismo.
Amizade.
Palavras soltas. Expressões
com sentido.
Vontade. Desejo de mudar. Dificuldade
em atingir o caos.
A pressa, sempre a pressa.
O dia que não termina.
O futuro que não chega.
Um livro na mão. Um tema
desconhecido. À descoberta.
Novos rostos. Hábitos antigos.
Estão ali, permanecem e não desaparecem.
As dificuldades.
As alegrias para recordar. Saudade.
Saudade infinita.
O que se é sem se ser. O que se foi sem nunca se ter sido.
O que não se tem.
O que se deseja.
O Amor. A Vida.

Fugas


Fugia de si, para si
como o deslizar do pincel na tela,
sem rumo.
Fugia do que queria para o que não queria
criando formas,
figuras
fenómenos
fantasmas de um passado presente.
Fugia da pressa que o prendia.
Cada traço
cada linha
cada cor, ou a ausência dela...
Folheava-os, explicava-os
Sabia-os de cor e mostrava-os:
com urgência, sem pudor,
com generosidade
e o talento na alma.

(Foto: trabalho de Paulo Serra fotografado por Fugitiva)

Outros

Desmanchas prazeres num corpo que não é teu.
Desfazes sorrisos numa rua por onde não passas.
Desnudas ideias que não são tuas.
Roubas. E não devolves.
Apareces. E não és.
Esconde-te. Não pertences aqui.

Ser?


Fingia um sorriso mudo.
Fingia um olhar distante.
Fingia.
Duvidava da própria existência.
Duvidava do silêncio do sorriso.
Duvidava da lonjura do olhar.
Duvidava.
Acreditava na vida.
Acreditava que existisse.
Acreditava na mudez do sorriso.
Acreditava na distância do olhar.
Acreditava.


Vivia numa tal dúvida que chegava a acreditar nela.

Tempestades


oiço um mar revolto
ensurdecedor;
as ondas fustigam a areia,
deixando marcas impossíveis de apagar;
de tão branco que está,
mar e céu parecem um só:
sem horizonte, sem distinção

oiço o mar revolto
ensurdecedor;
tão perto que se confunde
com o meu pensamento;
sinto-lhe o cheiro
sinto-lhe o frio
sinto-lhe o sabor

o mar revolto que oiço
está dentro de mim
ensurdecedor.

(Também aqui)

Num sonho


Adormecia no sonho que não era seu.
Aquele que lhe contavam vezes sem conta e que já sabia de cor.
Aquele que se fundia com os dias dispersos de uma vivência casual.
Aquele cujos pormenores se confundiam com a realidade.
Despertou. Adormeceu, pois era no sonho que queria viver.

Palavras


Deixarei de rabiscar palavras
no dia em que a tinta da mente se me secar.
Quiçá começarei a pintar
o que os meus dedos teimam em não pincelar.
As palavras saem-me com alguma naturalidade,
as pinceladas não: o conseguido é apenas uma imagem distorcida do imaginado.
A não materialização das imagens é frustrante
e quando lá consigo chegar perto
não creio terem saído de minhas mãos tais traços.
De longe, prefiro as palavras.

Escritos


Porque Amor não se escreve com letras,
nem tampouco com palavras.
Escreve-se com gestos,
sorrisos,
sussurros,
com o dedilhar...

Escreve-se com beijos, também.

Poema de uma margarida a um beija-flor


O que vês?
O que ouves?
O que sentes?
O que desejas?

Vejo-te na tua sombra oculta.
Ouço, no burburinho, o teu manso respirar
Sinto-te aqui. Ali. Acolá.
Onde os meus braços chegam e as mãos não alcançam.
Desejo a imperfeição do perfeito, contigo.

Impressões


Entrei pela porta dos sonhos e
encontrei-me na sala dos desejos.
Saí pela janela da fantasia.
Achei-te no meio do nada.
Existes?

Revelo-te em papel fotográfico
onde as cores da imaginação
se misturam com as da realidade

Espalho as minhas impressões digitais
onde ficarão para sempre.
Aí. Nesse mesmo lugar.
Onde ,um dia, te vi.

(Recuperado e editado)

Quisera eu ser...


... suspiro no teu respirar;
... presa no teu horizonte;
... beijo nos teus lábios;
... sede na tua boca;
... abraço no teu corpo;
... borboletas na tua barriga;
... cócegas nos teus pés;
...perfume na tua pele;


Tudo isto. Algo mais. Muito mais.
...nada do que só palavras possam transmitir.

Dos sonhos


Do que se vive acordado
restava a sombra
grande, crescente
vítima de um sol que se punha no horizonte.
Com a noite chegavam os sonhos:
quentes
ardentes
reais.
Tomavam forma de suspiro,
de suor,
de fragâncias que não se sentiam.
Adormeciam no cansaço,
para resurgir ao amanhecer.

Fortuna


Diálogos surdos que povoam a imaginação de ruídos suportáveis.
Gestos medidos. Palavras (pre) meditadas,
onde nada acontece por acaso,
onde a fortuna não é sorteada numa qualquer roda de feira ambulante.
Ou não:
os diálogos continuam a ser surdos,
mas os gestos e as palavras surgem a partir dos seus antecessores
e, afinal, a roda gigante da fortuna desliza a uma velocidade vertiginosa.

Príncipes, princesas e castelos de sonhos onde os dragões são facilmente derrotados


No país dos sonhos, onde o impossível se torna realidade e onde o improvável toma forma, e onde o tempo não tem existência, vive um pouco de cada um de nós. Os medos e anseios são fortificados dentro de grossas muralhas que os mantêm controlados e a audácia e a coragem surgem quando e como quisermos.

Retrato a cores

Pintei com paixão este retrato que agora contemplo.
Tacteio cada traço de um modo diferente,
já que cada um tem uma história para contar.
Histórias de amor, de amizade,
que exalam felicidade.

E os traços negros?
Esses, que desenhados com desalento, raiva ou ódio
foram apagados, esborratados.

Marcas? Ficaram:
algumas, poucas, nenhumas.
Voltei a usar um pano embebido numa solução de harmonia
para que os momentos mais negros pudessem ser (re)coloridos.


(Arquivo)

Silêncios


Sabem-me bem os dias assim: silenciosos...
Os sons não soam a ruído e os ruídos não se fazem ouvir.