Fugas


Fugia de si, para si
como o deslizar do pincel na tela,
sem rumo.
Fugia do que queria para o que não queria
criando formas,
figuras
fenómenos
fantasmas de um passado presente.
Fugia da pressa que o prendia.
Cada traço
cada linha
cada cor, ou a ausência dela...
Folheava-os, explicava-os
Sabia-os de cor e mostrava-os:
com urgência, sem pudor,
com generosidade
e o talento na alma.

(Foto: trabalho de Paulo Serra fotografado por Fugitiva)

Outros

Desmanchas prazeres num corpo que não é teu.
Desfazes sorrisos numa rua por onde não passas.
Desnudas ideias que não são tuas.
Roubas. E não devolves.
Apareces. E não és.
Esconde-te. Não pertences aqui.

Ser?


Fingia um sorriso mudo.
Fingia um olhar distante.
Fingia.
Duvidava da própria existência.
Duvidava do silêncio do sorriso.
Duvidava da lonjura do olhar.
Duvidava.
Acreditava na vida.
Acreditava que existisse.
Acreditava na mudez do sorriso.
Acreditava na distância do olhar.
Acreditava.


Vivia numa tal dúvida que chegava a acreditar nela.

Tempestades


oiço um mar revolto
ensurdecedor;
as ondas fustigam a areia,
deixando marcas impossíveis de apagar;
de tão branco que está,
mar e céu parecem um só:
sem horizonte, sem distinção

oiço o mar revolto
ensurdecedor;
tão perto que se confunde
com o meu pensamento;
sinto-lhe o cheiro
sinto-lhe o frio
sinto-lhe o sabor

o mar revolto que oiço
está dentro de mim
ensurdecedor.

(Também aqui)

Num sonho


Adormecia no sonho que não era seu.
Aquele que lhe contavam vezes sem conta e que já sabia de cor.
Aquele que se fundia com os dias dispersos de uma vivência casual.
Aquele cujos pormenores se confundiam com a realidade.
Despertou. Adormeceu, pois era no sonho que queria viver.